Doze peças que provam que cinzeiro nunca foi só sobre cigarro. Era sobre design, indústria e o jeito brasileiro de receber.

 

Senta aí que esse Garimpo vem com uma confissão. Cinzeiro é especialidade da casa, e a gente vai voltar nesse universo sempre. Mas tem um truque que preciso te contar logo na largada: a maioria das pessoas olha pra um cinzeiro e pensa em cigarro. E é justamente aí que mora o engano mais bonito.

O cinzeiro do meio do século passado é, antes de qualquer coisa, um pequeno objeto de design industrial. Era o brinde corporativo número um da era pré-canetinha. Estava em todo balcão, em toda mesa de centro, em toda penteadeira. Atravessou as décadas em quantidade. E por isso carrega, em forma de porcelana e vidro, um arquivo da nossa indústria, das nossas viagens, das mesas onde a gente recebia visita. Quem traz uma dessas peças pra casa hoje não está comprando lugar pra apagar nada: está comprando design gráfico de mesa, escultura miniatura, porta-anel com pedigree, porta-chave com biografia. O uso é o que você decidir, como sempre dissemos por aqui.

Esse Garimpo é diferente do nosso primeiro com cinzeiros. Lá, passeamos pelos balcões que criaram a mitologia do Brasil (Texas Bar, Jandaia, Carbonara, DeMillus). Aqui, o eixo é outro: a peça pela peça, o material pelo material, a manufatura pela manufatura. Um mergulho mais técnico, mais sensorial, com duas histórias industriais maravilhosas no meio, uma brasileira em Teresópolis e uma uruguaia em Montevidéu.

Antes de descer pra cada uma, deixa eu te dar a chave de leitura.


O que cada material te conta

Porcelana com ouro. Era o brinde aspiracional. A porcelana branca vitrificada com filete dourado nas bordas foi o código universal do luxo industrial brasileiro entre os anos 40 e 70. Hotel querendo parecer europeu, marca querendo dizer “somos refinamento”, indústria querendo presentear o cliente importante. Todas escolhiam esse vocabulário visual. Quando você vê uma peça assim hoje, está vendo o gosto da burguesia brasileira do pós-guerra impresso em cerâmica.

Vidro e cristal trabalhado. A democratização do refinamento. Vidro prensado e cristal lapidado entraram em casa por outra porta, mais acessível, mais cotidiana, mas tinham seu próprio léxico de elegância: o bico de jaca dos anos 60, o relevo floral dos 70, o triangular minimalista do meio do século. O peso na mão era o argumento de venda.

Metal cinzelado. Aqui a peça deixa de ser louça e vira escultura. Prateado, latão, relevo em baixo: tudo aproxima o objeto do souvenir, da coleção e da arte pequena de mesa. É o cinzeiro que escapou da função e virou figura.


AS PEÇAS

1. Cinzeiro Comemorativo Sudamtex | Da Serra Fluminense para a sua mesa | Teresópolis, 1966

A Sudamtex, nome carinhoso da Dona Isabel S.A., foi uma das fábricas têxteis mais importantes do estado do Rio. Produziu seu primeiro metro de tecido em 1965, no sopé da Serra dos Órgãos, em plena Várzea de Teresópolis. No auge dos anos 80, chegou a empregar mais de mil pessoas, virou referência na produção do jeans nacional sob administração americana, e foi por décadas o coração econômico de Teresópolis e Guapimirim. Encerrou as atividades em 2006, deixando aquela ferida que toda cidade industrial brasileira conhece bem.

Essa peça é do primeiro ano de operação plena da fábrica, comemorativa da I Semana de Segurança da Sudamtex. Pensa nessa cena: 1966, indústria recém-inaugurada na serra fluminense decidindo presentear seus funcionários e parceiros com um objeto de porcelana fina pra marcar a primeira campanha de segurança no trabalho. É um gesto de outro Brasil. Porcelana fina circular, 11cm de diâmetro, design meio-do-século puro, com filetes em ouro contornando a borda e a impressão comemorativa no centro. Feita pela Porcelana São Paulo, de São Caetano (mais sobre essa manufatura no Dossiê lá embaixo).

Preço: R$ 70,00

2. Cinzeiro Escultural com Cachimbo | CST Pedreira | A outra vida da fábrica de isoladores

Esse aqui foi o que mais me deu trabalho de pesquisa, e o resultado foi delicioso. Peça circular generosa (15cm de diâmetro), porcelana com pintura azul e branca dialogando com a tradição da louça chinesa Ming, filetes em ouro contornando, e o detalhe mais marcante: um cachimbo esculpido em relevo no centro, uma pequena escultura dentro da peça. O cachimbo no lugar do cinzeiro é um chiste, uma piada visual da época em que fumar era ritual e o cachimbo era símbolo de quem tinha tempo de pensar.

O selo no fundo traz o monograma CST com a palavra PEDREIRA em meia-lua. A Cerâmica Santa Terezinha S.A. nasceu em 1960 no interior paulista fazendo justamente porcelana decorativa fina. Décadas depois virou outra coisa: hoje é uma das maiores fabricantes de isoladores elétricos de porcelana da América Latina, daqueles cilindros enormes que sustentam fios nas torres de transmissão. Essa peça é da fase ornamental dela, quando ainda fazia arte de mesa e não engenharia para o sistema elétrico nacional.

Preço: R$ 120,00

3. Cinzeiro DP Floral | Porcelana com ouro 24k

Essa peça é uma fofoca em forma de porcelana, no melhor dos sentidos. Quadrada, 9,5 cm de cada lado, com um buquê romântico no centro, borda azul cobalto profunda, e a aplicação de ouro de 20 a 24 quilates trabalhada em filigrana delicada. Uma riqueza que choca: ouro real, douração intacta, pintura sem desgaste, como se tivesse saído da fábrica ontem.

Preço: R$ 95,00

4. Cinzeiro Flores Amarelas | Porcelana São Paulo / São Caetano

Aqui a gente entra de novo na Porcelana São Paulo, mas em outro registro: do industrial-comemorativo (caso da Sudamtex) para o residencial-romântico. Peça quadrada, 10cm de lado, com bordas onduladas (aquele recorte sinuoso clássico das louças domésticas dos anos 50 e 60), filetes em ouro contornando, e um buquê vibrante de rosas amarelas no centro.

Preço: R$ 80,00

5. Cinzeiro Cadillac 1903 | Porcelana com nostalgia automotiva

Pequenininho, quadrado, 7cm de lado, porcelana branca com a ilustração de um Cadillac modelo 1903 no centro e filetes dourados ao redor. É objeto de colecionador no sentido mais puro: provavelmente nasceu como brinde corporativo do universo do antigomobilismo, ou como item de loja especializada em memorabília automotiva entre os anos 60 e 80.

O Cadillac de 1903 é um marco fundador. Era o ano em que a Cadillac Automobile Company tinha acabado de ser fundada em Detroit, e o modelo retratado tem aquela cara de carruagem motorizada que define a estética dos primeiros automóveis. Pra você ter ideia, o carro chegou ao Brasil no fim dos anos 1890, e em 1903 ainda era objeto raríssimo, símbolo absoluto de status. O ouro tem leve desgaste, o que aqui no Relíquias a gente reverencia: prova de que viveu.

Preço: R$ 70,00

6. Cinzeiro Balneario Carrasco | Da rambla mais elegante de Montevidéu

Aqui o Garimpo cruza o Rio da Prata, e a peça merece todo o respeito. Retangular em metal prateado, 9,5 x 8,5cm, com gravação em baixo relevo da fachada do Hotel Casino Carrasco. Pra entender o porquê dessa peça ser quase um monumento de bolso, precisa saber onde ela nasceu.

O Hotel Casino Carrasco é uma das construções mais icônicas da América do Sul. Projetado em 1912 pelos arquitetos franco-suíços Jacques Dunant e Gastón Mallet por encomenda do empresário Alfredo Arocena, fundador da Sociedade Anônima Balneario Carrasco, foi inaugurado em 1921 depois de quase uma década de obras interrompidas pela Primeira Guerra. O paisagista francês Charles Thays (o mesmo do Jardim Botânico de Buenos Aires) desenhou o entorno. A construção é em estilo eclético-historicista com base neoclássica e barroca, com mármores de Carrara nos jardins, salas de baile suntuosas, declarada Monumento Histórico Nacional do Uruguai em 1975. Pelas salas dele passou tudo que era nome do Cone Sul nas décadas de 30, 40 e 50.

Preço: R$ 50,00

7. Cinzeiro Escultural Cobra | Metal cinzelado

Aqui o objeto muda completamente de registro e entra no terreno da escultura. Pequeno (7 x 7cm), em metal prateado, com uma cobra esculpida em relevo serpenteando pela peça. O brilho é o do prata envelhecido, sem polimento exagerado, com aquela pátina misteriosa que metal antigo carrega.

Preço: R$ 80,00

8. Cinzeiro Retangular “Bico de Jaca” | O cristal dos anos 60

Esse aqui é a memória pura do bar de sala da casa dos avós. Retangular, 9 x 12 cm, cristal espesso texturizado no padrão conhecido carinhosamente como “bico de jaca” ou “tijolinho”: aquele recorte geométrico que cria pontas piramidais que pegam a luz e jogam reflexos por toda a peça.

O bico de jaca foi um dos padrões mais cultuados do vidro prensado brasileiro e internacional entre os anos 50 e 70, presente em bandejas de bar, baldes de gelo, cinzeiros, copos de uísque. Tinha em casa de família, em hotel, em consultório de médico. Hoje voltou em força no design decorativo, especialmente porque carrega aquele peso visual e tátil que o vidro contemporâneo perdeu.

Preço: R$ 100,00

9. Cinzeiro Circular em Cristal Trabalhado | A imponência do peso

Companhia natural da peça anterior, em outra chave. Circular, 15 cm de diâmetro, cristal grosso de qualidade com lapidação trabalhada nas bordas que captura e refrata a luz. Brilha quando bate sol da tarde. Pesa. Imponente.

Esse é o objeto da sala formal, daquela sala que só era usada em domingo de visita. Ficava sobre o piano, sobre a mesa de centro de jacarandá, sobre o bar. Status doméstico discreto, sem precisar de marca, sem precisar de selo: bastava o peso e o brilho. Hoje funciona absolutamente sem o cigarro, para apoiar chaves no hall ou virar bowl de aperitivos numa noite de receber.

Preço: R$ 110,00

10. Cinzeiro Triangular Mid-Century | Quando vidro vira geometria

Mudança total de tom. Se as duas peças anteriores eram opulentas, essa é o contrário absoluto: um triângulo de vidro maciço de 11 cm de ponta a ponta, sem ornamento nenhum, apenas forma e peso. É o objeto que abraça a filosofia do meio do século do “menos é mais”, a mesma geração que produziu a cadeira Egg do Arne Jacobsen e a poltrona Mole do Sergio Rodrigues.

Aqui o que importa é a transparência, a precisão da forma triangular, o jeito como brinca com a luz sem precisar de lapidação ou textura. Pousado sobre um livro de arte, sobre uma mesa lateral, sobre uma estante de madeira clara, ele se torna escultura.

Preço: R$ 60,00

11. Cinzeiro Circular com Rosas em Relevo | A descoberta do KIG

Termino com uma peça que carrega minha confissão profissional do mês. Circular, 15 cm de diâmetro, vidro transparente prensado robusto, com um belíssimo padrão de rosas esculpidas em relevo no fundo que cria um jogo de luz delicioso quando vista de cima.

Aqui mora a confissão. Por muito tempo eu (e nove em cada dez antiquários brasileiros) batia o olho nesse padrão e dizia, automaticamente, “Nadir Figueiredo”. É tão presente nas casas brasileiras desde os anos 70 que virou sinônimo do vidro nacional. Mas não é. Essa belezura é da KIG (Kedaung Industrial Group), fábrica indonésia fundada em 1969 que exportou padrões em vidro prensado pra metade do planeta entre os anos 70 e 90, inclusive em massa pro Brasil. Continua sendo uma peça brasileiríssima pela memória afetiva, sem deixar de ser indonésia pela origem. Cabe nessa contradição o melhor do garimpo.

Preço: R$ 55,00

12. Trio de Cinzeiros em Vidro Prensado | O design utilitário nacional

Para fechar o garimpo, um clássico absoluto do utilitário brasileiro em dose tripla. Três cinzeiros circulares em vidro prensado transparente, com borda finamente canelada e três cavas de descanso. É o design industrial focado na durabilidade: vidro espesso feito para resistir ao uso contínuo e à rotina pesada.

Hoje, esse trio se desdobra em múltiplas funções pela casa sem a menor cerimônia. Podem ir à mesa servindo de castiçal ou apoio para sachês de chá, ou direto para a mesa de trabalho organizando clipes e miudezas no escritório. O valor do design utilitário está justamente na sua capacidade de ser ressignificado.

Preço: R$ 50,00 (o conjunto com 3 peças)


O DOSSIÊ DAS MANUFATURAS

Porque no Relíquias da Coroa, a gente quer saber quem fez, como fez e por quê.

CST — Cerâmica Santa Terezinha (1960–presente) — Pedreira/SP: Nasceu em 1960 no interior paulista, em plena Pedreira, cidade apelidada de Flor da Porcelana do Brasil pela concentração de fábricas de louça fina. Nas primeiras décadas, dedicou-se à porcelana decorativa e ornamental, com pinturas em azul cobalto e ouro que viraram marca registrada. Atendia o mercado doméstico e brindes corporativos. Com o tempo, a empresa se reinventou completamente: hoje é uma das maiores fabricantes de isoladores elétricos de porcelana da América Latina, daqueles cilindros que sustentam fios em torres de transmissão. Tem peça da CST guardada hoje em casa de colecionador como tem peça da Mauá: por amor à manufatura que se reinventou sem perder o nome.

Porcelana São Paulo / Porcelana Teixeira — São Caetano do Sul/SP: Aqui mora uma das maiores confusões do colecionismo nacional. A manufatura se chamava Porcelana São Paulo, mas ficava em São Caetano do Sul, cidade vizinha na Grande São Paulo. Por isso o selo no fundo das peças traz “Porcelana São Paulo — São Caetano”, o que faz muito iniciante achar que existiu uma fábrica chamada “São Caetano”. Não existiu. O que houve foi a Porcelana São Paulo, depois rebatizada de Teixeira, atendendo tanto residências (louças decorativas, conjuntos de jantar) quanto encomendas corporativas (caso do nosso cinzeiro Sudamtex de 1966). O selo verde-musgo quadrado é a assinatura. Essas peças circulam em quantidade hoje justamente porque eram a louça da burguesia média no auge da industrialização paulista.

KIG — Kedaung Industrial Group (1969–presente) — Jacarta, Indonésia: Fundada em 1969 por Agus Nursalim, a KIG é a maior fabricante de vidro prensado da Indonésia e uma das maiores do mundo. Especializada em padrões decorativos clássicos (rosas em relevo, fleur-de-lis, motivos de uvas e folhas), exportou em volume gigantesco para o Brasil, Estados Unidos, Europa e América Latina entre os anos 70 e 90. A pegada dela no imaginário brasileiro é tão forte que a gente confunde permanentemente seus padrões com produção nacional, especialmente com a Nadir Figueiredo. É a manufatura indonésia que adotamos sem saber.


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Com afeto e muito garimpo,

Sônia. A Coroa do Marketing