Onze peças que esperaram para ser olhadas. Vasos, vidros e cerâmicas que atravessam mil anos de história brasileira para chegar até a sua casa.
Nesse começo do Relíquias da Coroa, temos sempre uma pergunta rondando: o que faz uma peça merecer continuar existindo?
Não é o preço. Não é a marca. Não é o estado de novo, porque o que a gente busca é justamente o oposto disso.
O que faz uma peça merecer continuar existindo é o olhar. Alguém que reconhece nela a história que outros não veem. Um vaso que ficou décadas numa cristaleira esperando alguém que entendesse o peso do Murano. Um pato kitsch que sobreviveu a faxinas porque alguém na família não teve coragem de jogar fora. Uma cerâmica Marajoara que cruzou mil anos de tradição para chegar até aqui.
Esse Garimpo é sobre isso: onze peças que estavam esperando o olhar certo.
Amanhã, quinta-feira, às 10h da manhã, todas elas entram no ar em reliquiasdacoroa.com.br. E como sempre, são peças únicas. Quem chegar primeiro leva.
Mas antes da pressa, a gente conta a história.
O conjunto da semana
Onze vasos e potiches, todos da categoria Para Decorar. Não foram escolhidos por acaso: cada um responde a uma pergunta diferente sobre o que cabe na nossa curadoria.
Como reconhecer uma peça verdadeira?
Começamos pelo Vaso de Murano Bordô (R$ 450), porque ele é uma aula. A primeira coisa que entrega que é Murano de verdade não é a cor, é o peso. Vidro soprado artesanal de alta qualidade tem densidade que vidro industrial nunca alcança. Depois vêm as bolhas de ar controladas pelo sopro (técnica bullicante), e a borda ondulada com pontas livres moldadas à mão.

Era da mãe de uma vizinha, de mais de 70 anos de uma das curadoras, daquelas peças que ficam décadas numa mesa antiga esperando alguém que saiba o que tem nas mãos. Tem bicados na base, e a gente não vai esconder. São marcas da vida. No dossiê no final do email tem toda a descrição sobre a tradição do vidro aqui no Brasil.









Como uma técnica atravessa séculos?
O Vaso de Cristal Azul Lapidado (R$ 95) é cristal overlay: uma camada fina de cristal cobalto fundida sobre cristal incolor, lapidada à mão para revelar padrões transparentes por baixo. Cada estrela, cada folha, cada losango foi cortado um a um numa roda de lapidação.

A tradição vem da Boêmia, atual República Tcheca, onde monges beneditinos descobriram no século XIII que giz com potássio dava ao vidro uma transparência única. Setecentos anos depois, esse vaso continua sendo herdeiro daquele gesto.






E quando a história é mais antiga que a escrita?
Aí a gente entra na cerâmica indígena brasileira.

O Vaso Cerâmica Marajoara (R$ 150) é uma das peças mais bonitas que passaram pelas nossas mãos. De um lado, padrões geométricos em ziguezague e meandros gravados na argila. Do outro, um medalhão com um pássaro entre folhagens. A arte Marajoara é a mais antiga arte cerâmica do Brasil, produzida pelos povos indígenas que ocuparam a Ilha de Marajó entre 400 e 1400 d.C. A partir dos anos 1960, artesãos da região de Belém passaram a reinterpretar esses grafismos ancestrais. Cada peça contemporânea no estilo é uma ponte entre o presente e mil anos atrás.
Ao lado dele, dois irmãos:
-
Vaso Cerâmica Marajoara com Borda Floral (R$ 150). Mesma técnica, linguagem completamente diferente. Padrões geométricos em meandro na faixa superior, motivos florais e vegetais estilizados na barriga, e uma borda ondulada em pétalas que abre a peça ao invés de fechá-la. O fundo tem uma marca gravada na argila que ainda não conseguimos identificar. Quem sabe você descobre antes da gente.

-
Vaso Cerâmica Rústica com Fibra (R$ 120). O mais silencioso dos três. Barro cru, sem esmalte, sem pintura. O que o decora são tranças de fibra vegetal aplicadas na argila ainda úmida, antes da queima. No forno, o orgânico e o mineral viram uma coisa só. Anterior à escrita, anterior ao ferro.










E o Brasil que se diverte?
Esse a gente não esquece nunca.

O Vaso Pato Cerâmica (R$ 65) é puro Brasil dos anos 1980 e 90. Cerâmica esmaltada, animal humanizado em pé com aquela expressão de quem está prestes a contar uma fofoca. Na origem, era um porta-utensílios para colheres de pau na bancada da cozinha.






A estética é o que a gente chama de kitsch brasileiro, aquela escola que misturava utilidade doméstica com encantamento, sem cerimônia, sem complexo. Hoje sobreviveram poucos. E os que sobreviveram em estado decente, com a pintura intacta, são raros.
E a beleza discreta?
Tem peças que não pedem aplauso. Pedem atenção.

O Vaso Cerâmica Azul Anil (R$ 90) tem um azul que não se faz mais hoje, com manchas naturais que são química do fogo. Pertenceu à Dona Nina, vizinha da nossa curadora, que anunciou no grupo do bairro.



O Potiche Cerâmica Furta-Cor (R$ 90) tem aquele acabamento luster iridescente que muda de cor conforme a luz, uma técnica que nasceu nas cerâmicas islâmicas do século IX. A tampa tem um pequeno bicado que a gente declara sem drama. O corpo está intacto.




E o Vaso Cerâmica Branca com Relevo Losango (R$ 80), que veio da mãe de uma das curadoras, é puro design: um padrão de losangos que a luz transforma em sombra e profundidade. Tem bicados pontuais no relevo e na borda, marcas de quem existiu dentro de uma família por anos.




E quando dois vasinhos se encontram?
Fechando o conjunto, duas duplas.

A Dupla Vasinhos Cerâmica Azul Cobalto com Dourado (R$ 90) é a única do conjunto onde duas peças de origens diferentes se encontram pela cor. Um pertenceu à mãe de uma das nossas curadoras. O maior tem glicínias em relevo, flor que, em várias culturas asiáticas, simboliza paciência, longevidade e a beleza que vem devagar.



A Dupla Vasinhos Cerâmica Jequitinhonha com Flores (R$ 65) traz a linguagem da cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha, uma das mais importantes escolas da cerâmica brasileira, onde mulheres ceramistas modelam o barro à mão, sem torno, e a tradição passa de mãe para filha há gerações. Esse conjunto veio de uma viagem que a mãe de uma das nossas curadoras fez ao Vale, e vem com cinco florezinhas de barro em haste: um jardim que não murcha.



O Dossiê das Tradições
Porque no Relíquias da Coroa, a gente quer saber de onde veio, como chegou aqui e por que ainda importa.
Vidro Murano Brasileiro (1958 — até hoje) | Poços de Caldas, MG Em 1958, o mestre vidreiro italiano Aldo Bonora chegou a Poços de Caldas com um segredo milenar. A técnica do sopro de vidro tinha sido guardada na ilha veneziana de Murano desde o século XIII, quando a República de Veneza ordenou que todos os vidreiros se mudassem para a ilha para proteger seus métodos. Dois garotos mineiros, Antônio Carlos e Paulo Molinari, aprenderam o ofício com Bonora quando tinham 11 e 8 anos. Em 1962, fundaram a Cristais São Marcos. Hoje Poços de Caldas abriga quatro fábricas de cristal, todas fundadas por mestres italianos ou seus discípulos diretos. O sopro veneziano tem sotaque mineiro e as peças exportam para mais de 40 países.

Arte Marajoara (400–1400 d.C., ressurgimento em 1968) | Ilha de Marajó e Icoaraci, PA A cerâmica mais antiga do Brasil é produzida pelos povos que ocuparam a Ilha de Marajó, na foz do Amazonas, entre os anos 400 e 1400 d.C. Urnas funerárias, tangas, vasilhas, estatuetas, tudo moldado à mão e gravado com um sistema iconográfico de simetrias e repetições rítmicas que os arqueólogos ainda estudam. Em 1968, o ceramista Raimundo Saraiva Cardoso, o Mestre Cardoso, visitou o Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém e se encantou com o acervo. Com apoio dos pesquisadores, começou a reproduzir as peças dentro do próprio museu, estudando as técnicas originais. Assim nasceu o artesanato Marajoara contemporâneo no distrito de Icoaraci. A linha que ele traçou tem mais de 50 anos e segue.

Vale do Jequitinhonha, MG, e todo o Brasil Não tem data de fundação porque nunca foi fundada. A cerâmica popular brasileira é uma tradição contínua que passa de mãe para filha há gerações, sem torno, sem fórmula, com os materiais que a terra oferece. No Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, as ceramistas moldam o barro à mão e pintam com pigmentos naturais. Os vasinhos com flores de barro são uma das expressões mais clássicas dessa escola: o vaso como suporte, a flor como promessa permanente.

Como comprar amanhã
Quinta-feira, às 10h da manhã, em reliquiasdacoroa.com.br.
🔔 Atenção: A compra é apenas pelo site. Não vendemos por Direct, comentário ou WhatsApp. O site é nosso ambiente seguro para garantir que a peça chegue até você.
Como a maioria das peças é única, o segredo é não bobear.
No Instagram (@reliquiasdacoroa), amanhã o feed e os stories ganham vida com as peças no ar. É nosso ponto de encontro para celebrar o garimpo da semana, mas o carrinho fica sempre no site.
Por que isso importa
Garimpar aqui é escolher um lado.
O lado da história, da memória, da cultura que resiste. O lado de quem entende que comprar uma peça com marca da vida é, ao mesmo tempo, um ato político e estético, porque diz que a gente prefere a densidade do tempo ao vazio do novo.
Onze peças. Onze histórias. Onze pretextos para olhar.
Até amanhã às 10h.
Com afeto e muito garimpo,
Sônia.
A Coroa do Marketing do Relíquias da Coroa.
