
Senta aí, porque o nosso primeiro Garimpos de Quinta não é catálogo. É um passeio pela história do Brasil que não coube nos livros, mas coube nos balcões, nas mesas de centro e nas gavetas dos quartos de hotel.
Passei horas mergulhada em arquivos, selos de porcelana e memórias da cidade para trazer não apenas cinzeiros, mas fragmentos de épocas em que o design nacional tinha personalidade de sobra. E aqui, eles renascem. Porta-joias, porta-chaves, porta-anéis, ponto de partida para uma boa conversa na estante. O uso é o que você decidir.
PARA RECEBER > CINZEIROS
1. Texas Bar | Onde Elza soltou a voz | Copacabana, Rio
O Texas Bar ficava na Av. Atlântica, 974-A, e era capítulo à parte da noite carioca. Foi ali que Elza Soares, ainda jovem, começou a cantar. Era o reduto onde samba-canção encontrava jazz, onde Antonio Maria se perdia em crônicas e onde a bossa nova nascente cruzava com a boemia de frac. O paradoxo está na peça: um cowboy em cavalo empinado, entre cactos, homenageando o Velho Oeste americano numa Copacabana que respirava trópico. Era o Brasil dos anos 50 e 60 querendo ser cosmopolita e já sendo, sem perceber, absolutamente original.




A peça: Porcelana branca vitrificada com borda ondulada e aplicações em ouro legítimo nas ondulações (cada uma parece uma pepita fundida no bordo). O logo impresso em marrom terracota traz o cowboy, os cactos e o endereço com a sigla GB (Guanabara), o que data a peça antes de 1975, quando o estado da Guanabara deixou de existir. É a peça mais sofisticada, e a mais difícil de achar em estado íntegro como essa.
Preço: R$ 180,00
2. Jandaia Hotel | o QG da música brasileira | São Paulo

Se as paredes do Jandaia, na Av. Duque de Caxias, 433, falassem, cantariam. Inaugurado nos anos 60, virou refúgio oficial dos artistas por estar estrategicamente perto das grandes gravadoras e rádios paulistanas. Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e Agnaldo Timóteo eram figuras tão comuns ali quanto o café da manhã. Leci Brandão morou no hotel. E tem uma história maravilhosa de que os Titãs, ainda meninos, foram até o quarto da lendária Clementina de Jesus.



A peça: Vidro prensado quadrado, transparente, com o logo em azul-marinho no fundo. O desenho é um “J” geométrico em losango, tipografia institucional clássica dos anos 80. Peso ideal para a mesa, vidro grosso, sem lascados. Sobreviveu à boemia sem um arranhão.
Preço: R$ 110,00
3. Gran Hotel Souto | O "hotel" que era motel | Belford Roxo, RJ
Essa peça vem com um segredinho saboroso. O Gran Hotel Souto nunca foi bem um hotel. Fundado em 11 de maio de 1971 na Rua 28 de Setembro, 125, em Belford Roxo, ele é um motel até hoje, mas nasceu na época em que motel brasileiro tinha que se chamar "hotel" por pudor, por cerimônia, por essa polidez tão nossa de dizer uma coisa querendo dizer outra. O disfarce começava no nome e continuava na comunicação visual, que imitava pousada de beira de estrada para disfarçar a suíte com espelho no teto.




A peça: Aqui está o melhor exemplo desse pudor em forma de objeto. A arte é um pequeno manifesto do design gráfico popular brasileiro dos anos 70: um outdoor ilustrado à mão, morros verdes ao fundo, palmeiras, nuvens redondas, tipografia robusta em vermelho e verde. Tudo conspirando para parecer hotel de família, pousada de viagem, lugar de conforto bucólico. Vidro prensado espesso, transparente, que deixa a ilustração brilhar como se fosse uma mini placa luminosa. O telefone de quatro dígitos (8157) fecha a cápsula do tempo. Um Brasil que se escondia atrás da própria paisagem.
Preço: R$ 85,00
4. Motel Carbonara | A mística de Bangu | Av. Brasil, Rio
Esse é para quem ama o Rio em todas as suas camadas. Por mais de meio século, o Carbonara foi farol dos apaixonados na Av. Brasil, 32.238. Era tão incorporado ao imaginário que aparecia como referência de localização na música "Na casa do campeão", de Joyce, para chegar na casa do Hermeto Pascoal: "passa o Carbonara e entra à direita". Quando fechou em 2023 para virar supermercado, a internet carioca parou. O comentário que virou meme: "o mercado vai dar emprego pra quem foi fabricado lá".




A peça: Vidro prensado quadrado com a etiqueta icônica — coroa imperial no topo (de onde vem, aliás, boa parte do meu apreço por essa peça) e faixa verde-branco-vermelha que homenageia a bandeira italiana, fazendo o chiste com o nome do motel. Vidro espesso, límpido, logo central intacto. É cult absoluto do Rio que resiste na memória.
Preço: R$ 120,00
5. DeMillus | O império da lingerie em porcelana

Fundada em 1947 por Nahum Aronson, a DeMillus revolucionou a moda íntima e o sistema de vendas por catálogo no Brasil. O nome é uma homenagem à Vênus de Milo, que aparece estilizada no logo, uma escolha iconográfica ousada para uma marca que queria dignificar o corpo feminino em plenos anos 40. Nas décadas de 50 e 60, a marca encomendava brindes corporativos que eram pequenas obras de arte utilitária, feitos pela Porcelana Rio Branco S/A, a mesma manufatura carioca que atendia o luxuoso Hotel Glória. Pela logo característica estampada no fundo das peças, dá pra datar essa dupla entre 1962 e 1965, pleno auge da fábrica, pouco antes dela encerrar as atividades.




Peça Perfeita: Cerâmica vitrificada branca com a Vênus estampada no centro e quatro apliques em ouro nos descansos de cigarro. Esta é a gêmea em estado impecável, com o brilho do ouro praticamente intocado e nenhuma marca de uso. É a versão “saiu da fábrica ontem” desse ícone da advertising memorabilia nacional, com mais de 60 anos nas costas e nenhum sinal de cansaço.
Preço: R$ 100,00









Peça com bicado: Mesmo modelo imponente, mesmo logo da Vênus, mesmo ouro nos descansos. A diferença está num bicadinho discreto na borda interna, aquele tipo de marca que o colecionador purista torce o nariz, mas que aqui no Relíquias a gente reverencia: é prova de que a peça viveu. Passou por mãos, cinzas, conversas, gargalhadas. Ela não é menos DeMillus por isso, pelo contrário. Para quem acredita que beleza sem história é cenografia.
Preço: R$ 80,00
6. Leme Palace Hotel | Estrelas na Av. Atlântica | Rio
O hotel que recebia Rock Hudson nos anos dourados de Hollywood no Rio. QG de executivos americanos, palco da famosa Boate Balaio e das notas de piano de Sacha Rubin ecoando pela Av. Atlântica. A varanda do Leme Palace era onde o Brasil encontrava o mundo sem precisar sair de casa.




A peça: Porcelana branca vitrificada com borda ondulada delicada, logo em azul cobalto manuscrito (não tipografado, o que é raro, parece carimbo à mão). Um clean chic que contrasta com o brilho dourado das outras peças. É o cinzeiro de quem tomava martini às 18h, não whisky às 2 da manhã.
Preço: R$ 120,00
7. Dreams Motel | O kitsch da rodovia | São Gonçalo, Rio

Inaugurado na Rodovia Amaral Peixoto, km 7,5, o Dreams nasceu na "era de ouro" dos motéis brasileiros, quando eles deixaram de ser passantes anônimos para virar templos de design arrojado, suítes temáticas e estética assumidamente cafona-sofisticada. O próprio logo, um oito deitado estilizado (que é infinito, mas também é a outra coisa), diz tudo.



A peça: Vidro prensado em losango, com serigrafia verde-petróleo. A etiqueta traz as cinco estrelas da auto-classificação (porque sim, motel também se dá estrelas), o coração minimalista no topo e o telefone ainda com prefixo de 3 dígitos. Peça sem opacidade de lavagem, bordas perfeitas. O Memphis Group brasileiro da Região dos Lagos.
Preço: R$ 90,00
8. Ginásio Leopoldinense | 40 anos da turma de 39 | Leopoldina, MG
Aqui mora uma história mais íntima. O Ginásio Leopoldinense, fundado em 1906, é uma das escolas mais tradicionais de Minas Gerais, com prédio neoclássico tombado pelo patrimônio. Mas esta peça específica não celebra o ginásio. Olhando pra peça entendemos que ela celebra a turma que se formou em 1939 e se reencontrou em 12 de dezembro de 1979 para comemorar 40 anos de formatura. É uma peça de afeto coletivo, feita em edição provavelmente limitadíssima para ex-alunos.




A peça: Porcelana branca em formato orgânico (parece uma nuvem ou uma paleta) com quatro apliques dourados nos descansos. A fachada do ginásio aparece em impressão sépia no centro, com a data comemorativa abaixo. Um item raro para colecionadores de história regional e quem valoriza peças que carregam biografia coletiva.
Preço: R$ 95,00
9. Lembrança de Brasília | Os Guerreiros de Bruno Giorgi em porcelana Mauá
Um souvenir do otimismo modernista dos anos 60. Celebrar Brasília era celebrar o novo Brasil que nascia, e o símbolo escolhido aqui não foi o Congresso, nem a Catedral, nem o Palácio: foi Os Candangos (ou Os Guerreiros), a escultura de Bruno Giorgi na Praça dos Três Poderes, homenagem aos operários anônimos que ergueram a capital do nada do Planalto Central. Uma escolha iconográfica politicamente carregada que diz muito sobre a peça: aqui se celebrava quem construía, não quem governava.




A peça: Porcelana fina hexagonal produzida pela lendária Porcelana Mauá (selo verde característico no verso, com o desenho das duas montanhas e a assinatura Porcellana Mauá, confirmando a procedência). Ativa entre 1937 e 1968, a Mauá foi a primeira manufatura brasileira a fazer porcelana fina de verdade, com brancura que competia de igual para igual com Limoges. Bordas com apliques em ouro 18k e a ilustração aquarelada dos Candangos no centro. É um pedacinho do otimismo desenvolvimentista brasileiro cabendo na palma da mão.
Preço: R$ 110,00
O DOSSIÊ DAS MANUFATURAS
Porque no Relíquias da Coroa, a gente quer saber quem fez, como fez e por quê.
Porcelana D. Pedro II (anos 50–70) — São Bernardo do Campo, SP e Petrópolis, RJ: Foi o padrão-ouro da hotelaria de luxo brasileira entre as décadas de 50 e 70, com fábricas em São Bernardo do Campo e unidade famosa em Petrópolis. Suas peças eram conhecidas pela pureza da massa e pela vitrificação capaz de suportar uso intenso sem perder a alma. Atendia hotéis, restaurantes e instituições que queriam o selo da elegância industrial brasileira nos seus objetos. Carregar a coroa no verso é carregar um pedaço da nossa industrialização mais sofisticada.

Porcelana Mauá (1937–1968) — Mauá, SP: Ganhou o apelido de "Capital Nacional da Porcelana" e foi a primeira manufatura brasileira a produzir porcelana fina de verdade, com brancura que competia com Limoges e Bavária. Ativa por três décadas, produziu peças comemorativas, souvenirs e linhas modernistas. O selo verde com as duas montanhas estilizadas é a assinatura de uma fábrica que fechou antes de virar moda e hoje é quase mítica nos antiquários sérios.

Porcelana Rio Branco (1947–1967) — Rio de Janeiro, RJ: Uma das manufaturas mais elegantes do Rio, e também uma das mais discretas. Começou em 1947 como marca dentro da Cia. Brasileira de Vidros, empresa do português Antonio Rodrigues d'Almeida, instalada em Vicente de Carvalho, na zona norte carioca. Emancipou-se em 1958, virou S/A, e operou de forma independente até por volta de 1967. Em duas décadas de vida, virou escolha de instituições de prestígio como o Hotel Glória e produziu os brindes corporativos, caso das peças encomendadas pela DeMillus. Suas cerâmicas vitrificadas têm acabamento pesado e chic, com durabilidade que atravessa gerações. Fechou antes de virar moda.
📍 Como Garantir Sua Relíquia?
Amanhã, quinta-feira, pontualmente às 10h, a loja abre no site: www.reliquiasdacoroa.com.br.
Dica da Sônia: todas as peças são únicas e carregam as histórias que você acabou de ler. A DeMillus aparece em dois corpos, cada um com sua biografia (a perfeita e a que viveu). Se alguma tocou seu coração, não bobeia. Relíquia boa não espera cronômetro.
Com afeto e muito garimpo,
Sônia.
A Coroa do Marketing
